Materiais de Shoggoth

Em preparação a uma extensa excursão à extra-territorialidade xenoplásmica – na trilha do ‘Materialismo Shoggótico’ do ‘Doutor’ Hank H. Hackhammer – eis aqui algumas passagens relevantes do épico The Mountains of Madness de Lovecraft (com comentários mínimos).

Um pouco de contexto preliminar:

“Pois este lugar não poderia ser nenhuma cidade ordinária. Deve ter formado o núcleo primário e centro de algum capítulo arcaico e inacreditável da história da terra, cujas ramificações exteriores, apenas vagamente relembradas nos mitos mais obscuros e distorcidos, haviam desaparecido completamente em meio ao caos de convulsões terrenas muito antes que qualquer raça humana que conheçamos tivesse se arrastado para fora da simieza. Aqui se esparramava uma megalópole paleogaiana, comparada com a qual as lendárias Atlântida e Lemúria, Commorium e Uzuldaroum, e Olathoc na terra de Lomar são coisas recentes de hoje – nem mesmo de ontem; uma megalópole que tem seu lugar entre blasfêmias sussurradas pré-humanas tais como Valusia, R’lyeh, Ib na terra de Mnar e a cidade Inominável de Arabia Deserta.”

No fundo de antigas catacumbas, nossos intrépidos exploradores são atraídos pelos intricados padrões de pontos que relatam a história abismal dos Grandes Antigos:

“A característica decorativa primária era o sistema quase universal de escultural mural, que tendia a correr em faixas horizontais contínuas com um metro de largura e arranjadas do chão ao teto em alternância com faixas de igual largura entregues à arabescos geométricos. Haviam exceções a essa regra de arranjo, mas sua preponderância era esmagadora. Frequentemente, contudo, uma série de cartuchos lisos que continham grupos de pontos em padrões estranhos seriam mergulhados ao longo de uma das faixas de arabescos. Quando os cartuchos com grupos de pontos apareciam – evidentemente como inscrições em alguma língua e alfabeto desconhecidos e primordiais – a depressão da superfície lisa era talvez de uma polegada e meia e a dos pontos talvez de uma polegada a mais.”

“As coisas que outrora eram criadas e moravam nesta assustadora alvenaria, na era dos dinossauros, não eram, de fato, dinossauros, mas bem piores. Meros dinossauros eram objetos novos e quase sem cérebro – mas os construtores da cidade eram sábios e antigos e haviam deixado certos traços em rochas que mesmo nesse tempo já haviam sido lançadas há mil milhões de anos – rochas lançadas antes que a verdadeira vida da terra tivesse avançado para além de grupos plásticos de células – rochas lançadas antes que a verdadeira vida terra sequer existisse. Eles foram criadores e escravizadores desta vida e, acima de qualquer dúvida, os originais dos antigos e diabólicos mitos, sobre os quais os Manuscritos Pnakóticos e o Necronomicon assustadamente dão pistas. Eles eram os grandes ‘Antigos’ que se infiltraram, vindos das estrelas, quando a terra era jovem – os seres cuja substância uma evolução alienígena havia moldado e cujos poderes eram tais que este planeta nunca havia criado. …Claro, as partes infinitamente primitivas do conto da colcha de retalhos – representando a vida pré-terrestre dos seres de cabeça estrelada em outros planetas, em outras galáxias e em outros universos – podem ser prontamente interpretadas como a mitologia fantásticas dessas próprios seres; ainda assim, tais partes às vezes envolviam desenhos e diagramas tão sinistramente próximos das últimas descobertas da matemática e da astrofísica que eu mal sei o que pensar.”

Melhor nem sequer mencionar tais coisas… “Mas tinha que ser; pois não poderíamos emitir nosso aviso de maneira inteligente sem a informação mais completa possível, e a emissão desse aviso é uma necessidade primeira. Certas influências perenes nesse mundo antártico desconhecido de tempo desordenado e lei natural alienígena tornam imperativo que uma maior exploração seja desencorajada”.

Estive pensando, por um tempo já, que precisamos de um agente antártico.
Shoggoths chegando…

“Foi sob o mar, primeiro por comida e depois por outros propósitos, que eles primeiro criaram vida terrena – usando as substâncias disponíveis de acordo com métodos há muito conhecidos. Os experimentos mais elaborados vieram depois da aniquilação de vários inimigos cósmicos. Eles haviam feito a mesma coisa em outros planetas, tendo fabricado não apenas as comidas necessárias, mas certas massas protoplasmáticas multicelulares capazes de moldar seus tecidos em todo tipo de órgãos temporários sob influência hipnótica e, assim, formando escravos ideais para desempenhar o trabalho pesado da comunidade. Estas massas viscosas eram sem dúvida o que Abdul Alhazred sussurrou sobre os ‘Shoggoths’ em seu assustador Necronomicon, embora mesmo esse árabe louco não tenha dado pistas de que algum deles tenha existido na terra, exceto nos sonhos daqueles que haviam mastigado uma certa erva alcaloide.”

Existem rumores plausíveis de que o ‘Árabe Louco’ Abdul Alhazred (nota para os Thelemitas – ‘AL has read’) era, na verdade, pelo menos metade persa e conduziu suas mais notórias feitiçarias em Qom, antes de ser devorado vivo por um Shoggoth no centro de Damasco.
Mas de volta aos Shoggoths…

“Quando os Antigos de cabeça estrelada neste planeta haviam sintetizado suas formas simples de comida e criado um bom suprimento de Shoggoths, eles permitiram que outros grupos celulares se desenvolvessem em outras formas de vida animal e vegetal para propósitos diversos, extirpando qualquer um cuja presença se tornasse incômoda. Com o auxílio dos Shoggoths, cujas expansões se poderia fazer levantar pesos prodigiosos, as pequenas e baixas cidades sob o mar cresceram até vastos e imponentes labirintos de pedra, não muito diferentes daqueles que mais tarde surgiram na terra. …A tendência constante ao longo das eras foi da água para a terra – um movimento encorajado pelo surgimento de novas massas de terra, embora o oceano nunca estivesse totalmente deserto. Uma outra causa para o movimento em direção à terra foi a nova dificuldade em criar e administrar os Shoggoths, dos quais a vida marítima bem-sucedida dependia. Com a marcha do tempo, como as esculturas tristemente confessavam, a arte de criar nova vida a partir da matéria inorgânica havia sido perdida, de modo que os Antigos tinham que depender da moldagem das formas já em existência. Na terra, os grandes répteis se provaram altamente tratáveis; mas os Shoggoths do mar, reproduzindo-se por fissão e adquirindo um grau perigoso de inteligência acidental, representaram, por um tempo, um problema formidável.”

As ferramentas biônicas de uma civilização impronunciavelmente alienígena, o ‘Mitos de Shoggoth’ (compartilhado pelos próprios Antigos) é aquele da tecnologia autonomizadora, no qual o tecnoplasma megabacteriano – que não deve nada a uma natureza que não seja já artifício – apalpa seu caminho até uma linha de escapada catastrófica.

“Eles sempre haviam sido controlados através das sugestões hipnóticas dos Antigos e haviam modelado sua dura plasticidade em vários membros e órgãos temporários úteis, mas agora seus poderes de auto-modelagem às vezes eram  exercidos de maneira independente e de várias formas imitativas, implantadas por sugestão passada. Eles tinham, parece, desenvolvido um cérebro semi-estável, cuja volição separada e ocasionalmente teimosa ecoava a vontade dos Antigos, sem sempre obedecê-la. Imagens esculpidas destes Shoggoths encheram a mim e Danforth de horror e repugnância. Eles eram normalmente entidades sem forma, compostas por uma geleia viscosa que se parecia com uma aglutinação de bolhas, e cada um tinha em média quatro metros e meio de diâmetro quando em esfera. Eles tinham, contudo, uma forma e volume em constante mudança – jogando fora desenvolvimentos temporários ou formando órgãos aparentes de visão, audição e fala, em imitação de seus mestres, seja espontaneamente ou de acordo com a sugestão.”

Abominações borbulhantes, de forma mutante, imitativas, hiperplásticas, tecnobióticas – é fácil de ver por que Hackhammer ficaria tão excitado com elas.

“Eles parecem ter se tornado peculiarmente intratáveis por volta do meio da Era Permiana, talvez cento e cinquenta milhões de anos atrás, quando uma verdadeira guerra de resubjugação foi travada contra eles pelos Antigos marítimos. Gravuras desta guerra e do modo decapitado e coberto de lodo em que os Shoggoths tipicamente deixavam suas vítimas mortas tinham uma qualidade maravilhosamente temível, apesar do abismo intermediário de eras incontáveis. Os Antigos haviam usado armas curiosas de distúrbios moleculares e atômicos contra as entidades rebeldes e, no final, haviam alcançado um vitória completa. Depois disso, as esculturas mostravam um período no qual os Shoggoths foram domesticados e quebrados pelos Antigos armados, como os cavalos selvagens do oeste americano foram domesticados pelos cowboys. Embora, durante a rebelião, os Shoggoths tivessem demonstrado uma habilidade de viver fora da água, esta transição não foi encorajada – uma vez que sua utilidade na terra dificilmente teria sido comensurável com a dificuldade de sua administração.”

Paciência…

“Decadente o quanto sem dúvida fosse seu estilo, estas últimas gravuras tinham uma qualidade verdadeiramente épica, em que contavam sobre a construção da nova cidade na caverna do mar. Os Antigos cuidaram disso de maneira científica – extraindo rochas do âmago das montanhas em favo e empregando trabalhadores especialistas da cidade submarina mais próxima para realizar a construção de acordo com os melhores métodos. Estes trabalhadores trouxeram consigo tudo que era necessário para estabelecer o novo empreendimento – tecido shoggótico a partir do qual criar levantadores de pedra e subsequentes animais de carga para a cidade na caverna e outros materiais protoplasmáticos para moldarem em organismos fosforescentes para propósitos de iluminação. …Finalmente, uma poderosa metrópole surgiu no fundo daquele mar Estígio, sua arquitetura muito parecida com a da cidade acima, e seu acabamento exibindo relativamente pouca decadência por causa do elemento matemático preciso inerente nas operações de construção. Os Shoggoths recém-criados cresceram até um enorme tamanho e a uma inteligência singular e foram representados recebendo e executando ordens com maravilhosa rapidez. Eles pareciam conversar com os Antigos imitando suas vozes – uma espécie de canalização musical em uma vasta amplitude… – e trabalhar mais a partir de comandos falados do que de sugestões hipnóticas como anteriormente. Eles eram, contudo, mantidos em um admirável controle. …Para continuar com o trabalho do mundo superior, havia se tornado necessário adaptar alguns dos Shoggoths amorfos e curiosamente resistentes ao frio à vida terrestre – uma coisa que os Antigos anteriormente haviam resistido em fazer.”

A vinda à tona dos Shoggoths – seu devir terrestre ou (mais exatamente) anfíbio – parece encher Lovecraft de horror obsessivo.

De reprente, Danforth grita:

“Eu cheguei bem perto de ecoar seu clamor eu mesmo; pois eu tinha visto aquelas esculturas primordiais também e havia tremulamente admirado a maneira em que o artista sem nome sugerira aquela horrível cobertura de limo encontrada em certos Antigos incompletos e prostrados – aqueles a quem os assustadores Shoggoths haviam caracteristicamente matado e sugado até uma medonha decapitação na grande guerra de resubjugação. Elas eram infames esculturas de pesadelo, mesmo quando contavam sobre coisas antiquíssimas e passadas; pois os Shoggoths e sua obra não deveriam ser vistos por seres humanos ou retratados por quaisquer seres. O autor louco do Necronomicon nervosamente tentara jurar que nenhum deles havia sido criado neste planeta e que apenas sonhadores drogados jamais os conceberam. Protoplasma sem forma, capaz de zombar e refletir todas as formas e órgãos e processos – viscosas aglutinações de células borbulhantes – esferoides elásticos de quadro metros e meio, infinitamente plásticos e dúcteis – escravos da sugestão, construtores de cidades – cada vez mais taciturnos, cada vez mais inteligentes, cada vez mais anfíbios, cada vez mais imitativos! Grande Deus! Que loucura deixou mesmo esses Antigos blasfemos dispostos a usar e esculpir tais coisas?”

Hehehehe…

“E agora, quando Danforth e eu víamos o limo preto frescamente brilhante e reflexivamente iridescente que se agarrava densamente aos corpos sem cabeça e fedia obscenamente com aquele odor novo e desconhecido, cuja causa só uma fantasia doente poderia imaginar – agarrado àqueles corpos e cintilados menos volumosamente sobre uma parte lisa da parede malditamente esculpida em uma série de pontos agrupados – entendíamos a qualidade do medo cósmico em suas mais remotas profundezas.”

Pesadelos pontilhados de Shoggoth…

Traumatizado para além dos limites elásticos da sanidade, Danforth começou a se comportar como um típico comentador do Hiperstição:

“Em raras ocasiões, ele tem murmurado coisas desarticuladas e irresponsáveis sobre ‘O fosso negro’, ‘o aro da caverna’, ‘os protoShoggoths’, ‘os sólidos sem janelas com cinco dimensões’, ‘o cilindro sem nome’, ‘os Faróis mais velhos’, ‘Yog-Sothoth’, ‘a geleia branca primordial’, ‘a cor de fora do espaço’, ‘as asas’, ‘os olhos na escuridão’, ‘a escada à lua’, ‘o original, o eterno, o imortal’ e outras concepções bizarras; mas quando ele está pleno de si, ele repudia tudo isto e o atribui às suas leituras curiosas e macabras de seus primeiros anos. Danforth, de fato, é sabido estar entre os poucos que jamais ousaram atravessar completamente aquela cópia cheia de vermes do Necronomicon que é mantido a sete chaves na biblioteca da faculdade.”

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